segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

A dimensão democrática das vaias para Lula na agenda da grande mídia

------------------------------------------------------ Por Marcello Bertollo

A abertura dos Jogos Pan-Americanos foi marcada pelas incessantes vaias ao presidente Lula todas as vezes que seu nome ou condição de chefe de estado era citado. As vaias, que já haviam ocorrido durante o último ensaio para a cerimônia, repetiram-se com maior vigor durante o espetáculo que deu início ao evento.
Durante três dias, os principais jornais estamparam em suas capas o tema das vaias ao presidente. O assunto só perdeu o primeiro plano na agenda dos veículos de comunicação após a tragédia aérea envolvendo o avião da TAM. Bom lembrar que nos três primeiros dias dos jogos, o Brasil havia conquistado apenas uma única medalha de ouro, no Taekwendô. Com isso, as vaias a Lula mantiveram ainda mais robusto destaque na imprensa.
Inúmeros figurões da política nacional, sejam do governo ou da oposição, emitiram notas, deram declarações ou entrevistas falando sobre o ocorrido. Articulistas, sociólogos, historiadores, analistas, todos puderam tirar uma “casquinha” do episódio. Até mesmo FHC foi alçado a um lugar de destaque para comentar o assunto, pedindo a Lula humildade para aceitar as vaias. O fato é que o acontecido abriu nos meios de comunicação um incessante debate acerca da origem, motivação e validade das vaias. Jornais, revistas, Internet, televisão, rádio... Os meios de comunicação foram um terreno vasto para as diversas opiniões e versões acerca do episódio.
Não foram poucos os blogs, fossem de famosos ou anônimos, que comentaram a vaia. No YouTube, por exemplo, o mesmo vídeo apresentando as vaias durante o ensaio da abertura foram colocados com títulos contraditórios, ora para defender, ora para atacar Lula. A batalha de versões e pontos de vista dominou os espaços destinados para comentários em blogs e vídeos do YouTube. Os fóruns e tópicos de comunidades no Orkut também foram lugar privilegiado para o debate sobre o tema.
A vaia influenciou o debate nacional no que se refere à popularidade do governo e de suas medidas. Foi posta em xeque a veracidade dos índices de aprovação de Lula apontados pelos institutos de pesquisa. A oposição destacou que se tratava de um alerta, enquanto os governistas tratavam de suscitar explicações. É difícil recordar precedentes de reações populares em solenidades que tenham provocado tamanho debate público através dos meios de comunicação.
Em 2002, o então presidente da república Fernando Henrique Cardoso recebeu os pentacampeões do mundo diante de uma grande multidão em Brasília. FHC não gozava de grande popularidade e prestígio nesta época e a rejeição ao seu governo era o caminho que Lula estava galgando para chegar ao Palácio do Planalto. No entanto, não há lembranças de protestos ou vaias contra FHC. E mesmo se houveram, estas ou não foram notadas ou não tiveram qualquer cobertura mais séria por parte da imprensa. Nesta oportunidade, a lembrança maior é do jogador Vampeta, que desceu rolando e embriagado a rampa do Palácio do Planalto.
Para vender as “vaias para Lula”, a mídia se valeu do notório transtorno do presidente diante da situação. As constantes gafes do protocolo tornaram a situação ainda mais constrangedora. E cada detalhe desta seqüência desconcertante foi noticiado pelos principais veículos de comunicação. A exploração do acontecimento pela grande mídia gerou a primeira grande polêmica. Apoiadores do governo começaram a girar suas “metralhadoras” em direção aos meios de comunicação.
José Dirceu, em seu blog no IG, não hesitou em detonar o enquadramento dado pelas Organizações Globo para as vaias ao presidente. Mas há que se considerar um certo exagero no tom e no direcionamento dos ataques por parte de Dirceu. Não foi apenas a Globo que deu ênfase ao agendamento da vaia em seus noticiários. Todos os demais veículos da grande mídia também o fizeram. A reportagem de capa do jornal “O Globo” do dia seguinte à abertura do Pan, inclusive, foi até bastante simpática com o governo ao comentar o ocorrido. "Sua alta popularidade não resistiu à máxima do escritor Nelson Rodrigues: o Maracanã vaia até minuto de silêncio." Com esta frase, o enquadramento do jornal “O Globo” atribui à vaia um caráter de fenômeno sobrenatural, oriundo da mística do estádio, e reafirma a popularidade do presidente com status de verdade absoluta.
Além disso, não parece que os nomes da oposição tenham tido espaço privilegiado em detrimento aos do governo para comentar o ocorrido nos grandes meios de comunicação. O Ministro dos Esportes, Orlando Silva, assim como o governador Sérgio Cabral, por exemplo, teve espaço em diversas oportunidades para falar sobre o tema. Na verdade, Lula e seus aliados caíram na armadilha do agendamento e deram pano para a manga. Principal-mente quando declararam publicamente que a vaia havia sido orquestrada. Ainda que esta hipótese seja viável, é quase impossível comprová-la, o que dá ares de arrogância e prepotência ao ponto de vista dos governistas, abrindo um flanco ainda maior para os ataques da oposição.
A primeira linha de tiro dos apoiadores do governo foi contra os pequenos partidos de esquerda que fazem oposição ao governo. Esta versão circulou minoritariamente na Internet e em alguns jornais. Mas a inviabilidade dela tornou-a insustentável. A manifestação organizada por sindicalistas destes partidos no dia da abertura do Pan reuniu no máximo mil pessoas em frente à Prefeitura do Rio de Janeiro. De lá seguiram para o Centro da cidade. É certo que não tinham força, tempo hábil e nem ingressos disponíveis para orquestrar tamanha operação.
Todas as suspeitas recaíram então sobre o prefeito César Maia. Esta possibilidade circulou não apenas blogs, chats, tópicos do Orkut e comentários do YouTube, mas também na capa de alguns jornais de grande circulação. Correu o rumor, espalhado por governistas, de que César e Rodrigo Maia haviam preparado a vaia desde o ensaio. E a principal evidência era o fato de que o prefeito, ao contrário de Lula e Sérgio Cabral, havia sido muito aplaudido. Sem dúvida que é do feitio do prefeito ações deste tipo. César Maia já recorreu a diversos expedientes duvidosos contra seus adversários políticos. O problema é que esta versão difundida pelos apoiadores do governo estende ainda mais o debate, pois abre uma série de novas polêmicas, que foram naturalmente exploradas ao ápice pelos meios de comunicação. O prefeito César Maia teria força suficiente para organizar algo deste porte? O governo está querendo inventar bodes expiatórios para justificar a vaia?
Se o prefeito foi capaz de orquestrar as vaias, pode-se dizer que se trata de uma deselegância profunda, mas não é possível afirmar categoricamente que mesmo isto é uma atitude plenamente antidemocrática. Afinal, as vaias foram quase unânimes. Exceção feita à tribuna de honra, não houve divisão entre vaias e aplausos no Maracanã. E não há como crer que todo o público presente estava ensaiado para vaiar o presidente. Assim, mesmo orquestrada, a vaia teria a dimensão democrática do apoio categórico dos demais presentes à festa.
O fato é que a abertura do Pan gerou um amplo debate na mídia e uma série de questionamentos ainda pairam no ar. Foram justas as vaias dirigidas contra Lula? É falta de civilidade vaiar o presidente da república? O público do Maracanã reflete a opinião pública? Os institutos de pesquisa fornecem dados falsos acerca da popularidade do presidente? A mídia ataca o governo quando dá destaque ao assunto? São perguntas que permitem diversas respostas e um ambiente midiático amplamente democrático.

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