domingo, 9 de dezembro de 2007

Democratas

O (re)nascimento(?)

-----------------------------------------------Por José Maria Pugas Filho

Em uma falha de campanha ou trajetória natural no modelo de circulação de elites, nas eleições de 2006, o Partido da Frente Liberal – PFL sofreria nas urnas o maior recuo eleitoral em sua história de duas décadas, perdendo 19 cadeiras na Câmara dos Deputados e uma cadeira no senado, além de conquistar apenas o governo do Distrito Federal.

Estava claro: a imagem do partido conhecido por ser o de mais direita do elenco partidário autorizado brasileiro repercutia negativamente demais para mante-lo na disputa com os demais partidos de grande porte.

Em 28 de março de 2007, após uma frustrada tentativa de refundação – que nos dizeres dos caciques Jorge Bornhausen e Antônio Carlos Magalhães cumpria um voto de compromisso desde a criação do partido – seria fundado o PD – Partido Democrata, aproveitando-se dos quadros do seu partido matriz, o PFL.

Esta alteração que poderia ser somente de nome refletiria em toda sua estrutura de comunicação e propriamente partidárias. As lideranças impopulares do PFL, costumeiramente reconhecidos como herança cruel de um período coronelista ou de exceção, foram trocadas por líderes e políticos mais jovens e carismáticos, com destaque para Ônix Lorenzoni e Rodrigo Maia. A derrocada da base partidária nordestina, representada com excelência pela vitória de Jacson Wagner na Bahia contra o candidato Carlos Souto, provocou o conseqüente reposicionamento do eixo de comando do partido para o Sul e Sudeste, mais especificamente, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Além destas substanciais mudanças, podemos ainda sustentar a oficialidade de algumas outras, tais como (a) a perda do rótulo liberal, extremamente impopular no imaginário político eleitoral brasileiro, e seu câmbio para liberalismo social de centro, deixando também, portanto, a qualidade de partido de Direita, (b) o diálogo direto com as bases sociais de fora de seus foros eleitorais tradicionais, onde sofreram suas mais aviltantes perdas, dispersando o discurso elitista concentrado em posturas continuistas e optando pelo discurso didático de aproximação com outros setores eleitorais indecisos e (c) a tentativa de não mais se apresentar como um partido político tradicional e sim como uma ferramenta flexível, mas eficaz, de cidadania e representação popular.
Estes redirecionamentos de sua política tentava compensar o desgaste sofrido com os escândalos de corrupção e conduta anti-ética de altos membros e lideranças do PFL, além de promover a visibilidade de novas forças políticas existentes no partido que, aparentemente, estava engessado em algum ponto do espaço-tempo distante do da maioria do eleitorado brasileiro. O próprio nome adotado nesta nova fase, DEM de Democratas, e não mais PD (por foneticamente se aproximar de pede, palavra que denomina pejorativamente indivíduos homossexuais em alguns países europeus) representa esta determinação em se desvincular das críticas passadas de manutenção de um poder central partidário e fora de contato com a realidade até mesmo de seus filiados.
Neste artigo, nos preocuparemos em pensar estas características a partir do primeiro programa eleitoral do partido, veiculado no dia 24 de maio de 2007, se foram transmitidas em sua edição, visto o DEM centralizar seus esforços na comunicação institucional e como foram transmitidos.
Em seu histórico, vemos no DEM um partido nascido dos quadros de outro, que não cindiu, mas simplesmente – como se não pudesse ser mais complexo que a própria cisão – adquiriu uma denominação distinta da anterior e se investiu, ao menos aparentemente, de novas lideranças e ícones de popularidade. Ao se fundar , o DEM se apresentou não como opção ao instinto PFL, mas como seu substituto aos correligionários órfãos da Frente Liberal e como um “partido para o Novo Brasil” aos potenciais novos eleitores.
Por se tratar de programa eleitoral gratuito, com espectro de longo alcance entre as mais diversas audiências, o seu tempo foi usado com a tentativa de se estabelecer com a segunda imagem, mais iniciada e menos iniciática, portanto, menos controversa, a de novo partido. Esta tática é a todo momento notada. Ou melhor, não notada, devido ao silêncio do programa em relação ao passado histórico do partido, remontando o PFL, partido identificado como de elite. Ao que podemos analisar, este silêncio se manifesta percorrendo as trincheiras montadas na batalha de popularidade do PFL. Se era elitista o PFL, o DEM se mostra popular e acessível a todos os cidadãos democratas. Se centralizado no Nordeste, fortaleceu-se a figura de um partido do Sudeste (São Paulo e Rio de Janeiro ganham destaque no programa partidário, além de Brasília). Por fim, se era o PFL um partido engessado nas teias de aranha de suas lideranças antiquadas, o DEM deverá ser um partido jovem, com lideranças abaixo da média brasileira de políticos.
Esta desconstrução da imagem do partido e de seus membros exilados no recém-nascido DEM, reformulando-os nesta nova estética, é, aliás, o ponto estratégico a ser analisado neste produto de apresentação. Manter o laço histórico com o PFL era arriscado demais, preferindo, portanto, não se referir a ele, ao menos diretamente. Ao equilibrar os quadros sabidos do PFL nos seus e oculta-los do conhecimento de público mediano, estava aí apresentada a aparência de ruptura que desconectava os dois partidos.
Como efeito derivado, a identificação do DEM com os problemas políticos que envolveram o PFL perde a credibilidade. Em sua práxis, o PFL se mostrou nos seus últimos anos, um partido de grandes nomes, personagens característicos que, caso ficassem cobertos por pesadas cortinas de fumaça, poderia fazer o eleitor não perceber os vínculos entre o partido e falhas éticas. Fato peculiar de uma democracia partidária na qual os partidos detém grande poder de fato e direito, mas sofrem com a falta de fidelidade partidária – com destaque para os membros das castas mais baixas de seus quadros – e prática personalista de voto. Conclui-se assim que o poder guardado no PFL foi mantido pelo DEM, com a ressalva de não sofrer com a imagem negativa de partidários como Antônio Carlos Magalhães, Jutahy Magalhães ou João Ribeiro, de envolvimento comprovado ou indícios de práticas de corrupção ativa e tráfico de influência.
Ainda ao discutirmos os quadros do DEM, o programa exibido no dia 24 de maio de 2007, serviu como grande vitrine de nomes que o partido deseja expor para os eleitores em suas próximas campanhas. Nomes de pouca expressão nacional, mas com redutos eleitorais fortes e aparentemente imbuídos dos caracteres que de acordo com a cartilha apresentada pelo DEM no horário gratuito, compõem o partido: modernidade, refratários a qualquer tentativa de burocratização do Estado, portanto ágeis, inovadores em suas áreas de ação e, o mais importante, jovens como partido. Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, Rodrigo Maia, líder nacional do DEM, José Arruda, governador do Distrito Federal, César Maia, prefeito do Rio de Janeiro e Ônix Lorenzoni, deputado federal pelo Rio Grande do Sul são os personagens principais do programa. Lideranças tradicionais como Bornhausen, Guilherme Afif ou Antônio Carlos Magalhães, ainda vivo na gravação e veiculação do programa não foram mencionadas, nem anteriores momentos da vida política brasileira que pudessem ser vexatórios ao PFL ou seus anteriores membros foram mencionados.
Acompanhando os pontos traçados no início de nossa discussão, a apresentação do DEM como alternativa de exercício cidadão do voto ao invés de um partido político se demonstra ainda na estratégia narrativa do silenciamento e didatismo, chave de entendimento do projeto de comunicação do Partido Democrata. Assim sendo, o DEM não é categorizado fortemente como partido, amparando-se no conceito genérico de Democracia e Democratas para ter sua imagem consumida sem a rejeição provocada pelas instituições partidárias no Brasil. O termo Democracia é definitivamente mais positivamente assimilado que partido. Vender-se como alternativa política, e não alternativa partidária, adere eficazmente ao consumo eleitoral brasileiro. Identificar-se como democrata exige menos compromisso social do que a filiação partidária.
Este manifesto de se mostrar como um não-partido ainda se reflete em sua sigla, desprovida da letra P inicial que denomina todos os demais partidos políticos brasileiros, e da omissão quase absoluta do termo partido nas discussões políticas que ocorrem nos meios de comunicação de alcance menos discriminado, tal como a televisão ou internet. Da mesma maneira que o DEM não é o PFL, ele também não é Partido, não sendo coerente que seu programa eleitoral fosse visto como tal.
A exigência de camuflar o programa político como outro de maior apelo de audiência motivou vários outros momentos históricos brasileiros, como a Rede Povo, da campanha presidencial lulista de 1990 ou a campanha premiada de Fernando Henrique Cardoso em 1994. Geralmente com tratamento estético para não se diferenciar do Jornal Nacional, principal programa em pontos de audiência no horário em que se veicula o horário eleitoral ou ainda escamoteado como o programa eleitoral seguinte, nos horários eleitorais gratuitos em que se há mais de um partido compartilhando o mesmo espaço na grade, a opção do DEM foi a de agilizar o seu programa e fornecer ferramentas discursivas que possibilitem o sujeito espectador de observar didaticamente as informações manuseadas pelo programa.
Fora momentos de entrevista com Rodrigo Maia, onde ele se encontra sentado em frente ao fundo negro, solenemente dando declarações como se estivesse sendo entrevistado, em todos os demais, os elementos estão em movimento, seja nos corredores do Congresso, nas ruas, em seus gabinetes ou no trânsito urbano. Apesar de não ser escopo do trabalho tratarmos a técnico usada no produto televisivo, este detalhe, ao ser condensado com a inserção de palavras chaves no decorrer do programa define a audiência ao qual se destina: aquela que não demonstra interesse imediato no gênero programa partidário.
O didatismo já usado na literatura de massa ou em programas de grande audiência se revela no programa analisado um trunfo preservado com cuidado pelos seus produtores. O conteúdo exposto pela apresentadora ou pelas personalidades políticas do novo partido é acompanhado por legendas que decifram o sentido literal da mensagem – enquanto Certeau discutiria a literalidade como arma das elites sociais. Este contato direto com o eleitorado de baixa ou média atenção eleitoral se demonstra fértil em momento político que, com o desgaste sofrido pelo PT e desconfiança em relação aos demais partidos, este eleitorado se encontra entre os preciosos indecisos. Esta indução ao sentido ideológico deslocado do institucional, como já discutido, irá facilitar a comunicação do DEM com este eleitor insatisfeito, além de naturalizar o silêncio em relação a sua herança política.
Por fim, ao dedicar um aspecto mais nacionalizado e ao mesmo tempo, visto a diversidade brasileira, desterritorializado, o programa não causa estranheza a maior parte do eleitorado, independente de suas identidades sociais, geográficas ou ideológicas. É um objeto que se deixa interrogar por estar investido de respostas em conceitos universais e, até certo ponto, toleradas por suas generalidades.
A impressão final que podemos deixar aos próximos que vierem a estudar este objeto é que se deve este objeto mais pelos seus silenciamentos que pelas suas afirmações. Em termos de proposituras, o programa deixa a desejar ao apresentar o DEM como cartilha partidária, mas genial ao alienar o DEM deste pensamento de cartilha. Como não podemos prospectar as intenções do emissor em confeccionar sua mensagem, cabe-nos afirmar que caso sua proposta seja, como se apresenta mais possível, mostrar o DEM como ideologia democrática e distancia-lo da visão clássica de partido, a execução foi impressionantemente eficaz ao menos tecnicamente. Uma boa primeira impressão para o grande público resistente a eventuais novos e conhecidos velhos partidos. Parte de uma estratégia maior de comunicação, o programa do dia 24 de maio demonstra os princípios que irão mover o contato do DEM com os eleitores: não importa a história a ser contada, mas como ela será contada.

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